Afroempreendedorismo e o Black Money

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Discutir a questão racial dentro do empreendedorismo deve ser parte intrínseca do desenvolvimento do ecossistema de inovação brasileiro e constante de nosso crescimento profissional e enquanto sociedade. 

Não somente pela data comemorativa do Dia da Consciência Negra (20 de novembro), mas também pela publicação de um estudo impactante no setor – BlackOut: Mapa de Startups Lideradas por Pessoas Negras, produzido pela BlackRocks – o Blog InovAtiva vem trazer à tona um bate-papo enriquecedor acerca do tema.

A conversa aconteceu no  ciclo InovAtiva de Impacto em 2020, entre Nina Silva, sócia fundadora do Movimento Black Money, e D’Black Bank, e Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta e da aceleradora de startups Preta Hub, mediada por Vinícius Aguiar, gestor de relacionamento da equipe InovAtiva. 

O que é o Black Money 

Nina Silva inicia sua fala afirmando que o Black Money é um conceito que não tem um “dono”, é uma prática da comunidade negra em manter o dinheiro por mais tempo para gerar melhor empregabilidade, oportunidades de negócios e autonomia.

Adriana ilustra um pouco melhor qual a importância deste esforço. A profissional começou sua carreira observando as atividades culturais produzidas para e por pessoas pretas na Vila Madalena, bairro boêmio da zona oeste da capital paulista. “Eu vi o potencial e a cadeia produtiva naqueles eventos. As bandas, técnicos, a mão-de-obra e o consumo é preto, mas quem ganhava o dinheiro no fim da noite eram os donos das casas noturnas, ainda os homens brancos. Ou seja, a gente produz e consome, mas não somos nós que nos beneficiamos disto”, diz. 

No Movimento Black Money, Nina se esforça para difundir uma ideia central: o valor de empoderar pessoas pretas para que elas sejam investidoras de suas próprias potências. 

Deficiências da educação

Nina também define três deficiências básicas na educação da população brasileira em geral: gestão de negócios, educação financeira e política. Quanto à última, ela se refere à arquitetura da manutenção do poder em poucas mãos, questão que continuamente reforça problemas estruturais como o racismo e machismo. “Falar de finanças, proporcionar acesso a estes temas em espaços como o InovAtiva é discutir a marginalização desses empreendimentos. A gente fala de afroempreendedorismo, mas não consegue falar de escala para essas empresas. Por que?”, questiona. 

“É normal eu ser convidada para discursar em grandes eventos, levar meu currículo, e ser chamada de ’empreendedora social’. Não há nada de errado com este título, mas na minha biografia estou como empresária. Existe um estigma em sempre nos colocar em uma posição de início, em pé de subsistência”, afirma a profissional. 

Necessidade de diversificar o ecossistema

Segundo Nina, a comunidade preta já tem um entendimento financeiro ancestral, dos tempos em que escravos alforriados se reuniam para comprar a alforria de outras pessoas. “Temos um conhecimento financeiro coletivo de colaboração já faz muito tempo, mas não existe fomento para que ele se sinta mínimo. Não temos incentivo para entender quais ferramentas nos auxiliam a ter visibilidade de marca, modelar o negócio e conseguir escalá-los, de fato.” 

A empresária explica que isso acontece porque as pessoas que decidem o que é escalar, um unicórnio, que investem entre si – não abrem o leque para diversificar o ecossistema. Mundialmente, segundo Nina, temos somente 2% de aportes financeiros sendo feitos em empresas fundadas por mulheres. Quando é considerada a interseccionalidade entre grupos étnicos diversos, esta taxa cai para 1%. 

“Este é o quadro mundial, e o que faz ainda menos sentido é que são justamente estes os grupos que trazem mais lucratividade para os acionistas.”

Nina afirma que startups lideradas por homens brancos trazem cerca de US$ 0,33 de lucratividade, enquanto as lideradas por mulheres, até US$ 0,78, segundo segundo o Boston Consulting Group.

Fortalecimento da questão identitária

“Movimentos culturais coletivos ajudaram a construir o fortalecimento da questão identitária e, na medida em que começamos a nos autodeclarar, também reivindicamos produtos que atendam nossas especificidades”, acrescenta Adriana.

Adriana cita como exemplo que, apenas recentemente, grandes marcas de cosméticos começaram a dar atenção às necessidades de peles e cabelos negros, desenvolvento produtos específicos para este público. 

“Há pelo menos dez anos, só era possível encontrar produtos nas prateleiras com nomes como ‘dome seus cachos’, ‘xampus para cachos rebeldes’ – era uma comunicação extremamente agressiva. Hoje é muito difícil ainda existir esse tipo de rótulo”, diz.

Consumo político

A profissional afirma que esses processos de transformação no campo do consumo foram feitos de uma dinâmica de ativismo social, o que chama de “consumo político”. 

“Minha escolha por consumir um produto de um empreendedor negro é mais uma questão de posicionamento político do que qualquer outra coisa. Eu sei que, à medida em que mais pessoas consumam a marca dele, isso o potencializa e ele consegue fazer seu negócio crescer”, explica Adriana. 

“Esta situação precisa de uma mudança sistêmica, que parte de políticas públicas e de pressão do próprio mercado. É necessário mudar a forma como consumimos, e isso envolve muitos contextos diferentes, para que consigamos chegar a pé de igualdade nessa relação entre produção e consumo”, finaliza Adriana.